Eu não sei a quem devo entregar algumas questões, que são, na verdade, questões de direito – de uso, de posse, um direito de envolvimento. É certo que existe bons advogados e que já exista um caminho prévio para essas questões mais ou menos desenvolvida (dispenso qualquer idéia de novidade!). O que se supõe é um direito inconciliável entre nós e os advogados de ofício com seus ternos e gravatas saltitantes. Se fosse dado o direito aos advogados à responderem sobre isso testemunharíamos um diminuição radiante dos momentos que ligam um humano ao outro. Bons advogados não se esquecem de artigos, normas e procedimentos para os quais, muitos deles, nunca precisaram. Mas é justamente o que os torna mais fortes nas suas ações que se edificam sobre eles mesmo (e isso já é um problema).
O direito de que falo nada tem haver com casos de desquite, crimes monstruosos ou coisa parecida, ao contrário disso. O direito de que falo liga ao outro antes mesmos de qualquer significado formal que levará a namoros, casamentos ou vai-e-vens matinais entre quatro paredes. O que lhe digo vem antes disso e me parece importante os efeitos desse contato. É que nem sempre estamos acostumados a dar permissão aos encantos supra sensíveis que modificam com extravagância os instintos de defesa. Parece-me certo dizer que nenhum advogado oferece com sensatez, alguma idéia favorável a arte da entrega. Existe, e sabemos todos nós disso, consultando orixás e os deuses de vossa santidade, uma porção de entregas mais ou menos realizáveis. É que nenhuma entrega significa compromisso, atenção ou preocupação com outro e só por não haver qualquer relação amistosa, já nos deixa embasbacado. Quando existe entrega a primeira de todas as dúvida é sobre a sua presença. Entrega que é entrega, entendendo ai sua realização sensorial, não diz “Eu já cheguei”. Não é um bom caminho impelir efeitos de regra ou probabilísticos pois a entrega é o oposto disso e faz mal dedicar esforços para entender aquilo que pouco se fala. É trabalho daqueles que a sentem enunciar sua condição elevando ao centro do debate sua leitura primária dos afetos em jogo, pois qualquer forma de erudição parece engraçado. Pois sabemos, nos invernos somos preenchidos por estados de entrega mais ou menos inteligíveis, que duram pouco e não podem ser partilhados numa conversa de muito ouvidos. A entrega é um capricho para com o outro , um convite ao nosso nome entendendo, a princípio, o que somos e o que não podemos ser. A entrega é um blefe semi-esportivo que conserva no outro um compromisso não dito e nem estipulável, pois com a entrega não se quer nada, cativa-se apenas a lembrança para o próximo encontro. É tarefa da entrega estimular nossas proibições ao outro, e deixar a mostra meia dúzia de certezas, histórias e um pouco da graça que se enuncia em tom de conversinha desprezível que tanto gostamos. A entrega é uma convicção que se procura ter sobre o outro passível, é claro, por meio de imaginações férteis e o ego hegemônico. O entendimento da entrega já não basta aos advogados atarefados, tão logo isso não vire uma conversa de bar.
quarta-feira, 16 de julho de 2008
segunda-feira, 14 de julho de 2008
Mais
É preciso dar voz ao sentimento de que podemos um pouco mais de nós mesmos. Criar caminhos e horizontes intercambiáveis entre sol e o sorriso. Mesmo que isso signifique um empenho rigoroso que nem sempre estamos dispostos por se tratar, é claro, de guerra não declarada. É a produção de um acordo tácito que permite a entrega ; uma certa simbiose entre as palavras e certos segredos.
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