sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

PARA UMA CADEIRA MAIS ARTEIRA

Eu sugiro fantasia. Eu penso que ao menos a escola deveria beber da ousadia e encarar a alegria. Estou atrás da fissura por onde caminha os passos de pensamentos menos recorrentes. Minha sugestão é esculpir a arte e desenhar os caminhos dos artistas. Paredes mais coloridas. Histórias mais compridas. Uma certa revelia. Enceno uma outra metodologia – aqui é distinta a harmonia. Falo-te de um enredo renovado, raios mais compridos e uma esfera mais profunda. Proponho novas tarefas para o exercício da introspecção, o saltar da dúvida e a invenção das possibilidades. O limite entre escola e o circo é tênue e os atores e a platéia se misturam. Cuidado com os leões e perceba os palhaços. Por um momento imaginar se desfazer das escolas a fim de serem outras.
Os livros didáticos trariam todas páginas em branco. Não viriam pronto. Tornariam-se meio. Não, o fim. Os alunos ousariam pintar a representação do mundo, a afirmação da vida que escapa, o presságio da loucura, e o apetite pela fantasia. Eles rabiscariam o sempre na presença de um pensamento renovado, tornariam autores das próprias páginas e produtores das suas audácias. O rumo seria guiado pela introspecção, o estado de acesso da voz que fala ao nosso pensamento. Perceber o traquejo da voz que nunca cessa é experimenta-lá. Formula-se em meio ao desajeito. Engreno a sensação. Se ao menos, a escola pudesse restituir a tristeza do mundo num tom particular capaz de amplificar a ressonância que salta ao nosso peito. Os professores flagrariam os sentidos genuínos no outro lado do dizer – o que ainda não se processou, o que está em via de se dizer, o que se refere ao inacabado do pensamento. Páginas soltas para o ensaio da ousadia.
O trajeto é dado pela autonomia e o pensamento abre as portas de uma escola arteira. Arte. Caberia mais árvores ao invés de muito concreto. Falo de um entendimento da realidade tão mais próprio e menos arbitrário, se apoiariam sobre as costuras do subterrâneo - o que ainda não é passível de ser dito. O sol que não nasceu, a palavra que gagueja. Aqui se permite aos alunos perguntarem sobre o movimento do vida. A didática é na direção da consagração da criatividade e do trágico – eis os palhaços; percebo possibilidades vindouras do estranhamento na produção de outros significados. Figuro a imaginação sem controle, a intuição sem protocolo, a precariedade do pensamento. A canalização do devir na orientação de um oceano inesgotável e profundo – lá onde não se tem notícia, lá onde não se tem escola. A constituição de si privilegiada pela expressão, o poder dizer, o que se destina ao irredutível.
Aqui é preciso duvidar. Mais escuro, menos luz. A dúvida que se processa norteia a arte que a precedo. A idéia de progresso é senão pela arte , pois, ela na afirmação da vida e na ampliação do exercício do não dito. Vida louca. O compromisso com o conhecimento é dado sobretudo com o seu movimento, e você sabe, a nobreza é outra – a harmonia é reversa. Novos Sartres, mais Pessoas. Outras Clarices. Aqui o que se afirma é o presságio da obra, o que está em compasso na produção de novos sentidos – a sensação percebida. Falo-te do que pode ser um gole do inesperado, o que irrompe a inexistência. É um ritmo que percebe a dúvida como possibilidade de inquietude, o não entendido, o que não se procura responder – a abertura ao desassossego. Sorver do instável e debruçar sobre os canteiros da vida, a cura que se procura. A obra que se coloca.
A escola como expressão da fantasia indagada pela educação que possa dar a sensação um pouco mais de vida - o tom de expressão, um chamado à sedução. Um convite ao poder dizer, aquilo que não pode ser regra ou subtração. Você sabe não se mata na fonte a biodiversidade do pensamento, a possibilidade do novo, o que ainda não é. Aqui é a possibilidade que sacode, o manto que se descobre. Esse circo, ou melhor essa levada do peito corrobora o desenvolvimento do sensível e o reconhecimento do inaudível. É. Por tudo, uma cadeira mais arteira destinado ao assento da fantasia. A luz da tenda que não se apaga.
***
O texto acima foi escrito buscando responder a seguinte pergunta:"O que você sugere para a educação brasileira?".

NÃO É TEMA!

Maturidade. Eita palavra forte e operante nesses dias, um discurso que não se esvazia. Ora hoje recebo o teor amargo dessa tal maturidade, essa palavrinha mágica enquanto linguagem de resignação - um discurso inibidor. Primeiramente é preciso ficar claro, não recorri a dicionário e nem confirmei se a palavra se constituiu do latim, também não fiz revisão bibliográfica e não consultei obras de referência. Não tenho método. Eu vim da maturidade e por ela eu me desfaço numa nudez que põe as calças aos pés. Á tempo essa tal palavra me incomoda feito um alarme ressonante que me inibe e me pega pelos punhos – me paralisa. Eu quero rasgar as palavras pra chegar nessa tal maturidade enquanto eu. Não levarei os resultados disso à congressos, conferências nem simpósios. Não quero limitações.
Deitada. A maturidade é uma palavra deitada; ela inibe os caminhos. É pesada e tem sempre alguém pra dizer “tira ela daí”. Afasta. Tira. Ira. Ela traz em si uma prepotência calcada num pensamento resistente. É moderna a maturidade, é doravante nas promessas, instaura as premissas, domina até o pensamento. Ela não abre espaços para os tons de vermelhos e para redefinição estética do pensamento. É monocromático, é tão pouco racional. A maturidade é uma palavra quase sem sentido enquanto inibidora da ousadia, da imprudência! Não constrói, paralisa, por vezes, consagrada no discurso da segurança, do autoconhecimento e da experiência. A maturidade não distingue... Ela agrupa e ordena!
A maturidade dos homens da Ciência me chama atenção. São homens com sete cabeças e nenhuma que as mereçam. Tens alguns deles que são maduros o suficiente e consagram até a vaidade. São velhos e suas idades são construídas com esforços e não admitem qualquer olhar para trás que signifique arrombar as garantias. Devem sofrer de maturidade de mais... Tudo em nome da Ciência. Eu diria “Ciência: troca o nome Ciência”. A linguagem dos homens da Ciência é o estojo de maquiar os rostos. É uma provocação. Não é poesia e nem versos decassílabos, pode ser um bordel ou um galinheiro, mas é aqui aonde se trabalha pintado.
Quando chega a maturidade o tema já se desfez. A Ciência se distancia da vida enquanto maturidade. Não se torna a flor da pele, se torna a flor dos artigos, das citações, da cientificidade mal calculada. Falta o p. Falta o sangue. A maturidade distrai o pensamento e o cristaliza. Edifica-se uma barreira e celebram-se as mesmas respostas. É mais uma linguagem da resistência. Na próxima aula, discutiremos a maturidade, tragam as tarefas, não cheguem atrasados e não perturbem a aula. Não é tema. Falem baixo. Façam silêncio. As vezes a gente pensa que depois da maturidade não tem mais nada, é a retradução intimidadora que se adquire pela repetição do discurso. Não se penetra na maturidade. O uso da palavra é enviesado e, por várias vezes se fixa alguém no seu devido lugar como um livro limpo que tem seu lugar guardado na estante. Você sente-se aqui. Acima de tudo a maturidade acompanha esses homens, e eles munido desse discurso intervencionista estipulam um controle, um berço pequeno. A maturidade é a linguagem da estratificação e acima de tudo, desincorpora as mudanças, busca a resignação do pensamento. Querem-me resignado. Não sacode a revolta. Ela não presta contas, escamoteia o desejo do duvidoso, as nuanças vertiginosas, e incorpora o ideal. Perde-se o agora, o instinto. É. A vida se esvazia no discurso da maturidade e os homens da Ciência são todos maduros. Não os confio! Não guardo reservas!
Sejam maduros nesta leitura!

domingo, 23 de dezembro de 2007

Em nome das palavras...

Preciso descumprir com indevido esforço algumas necessidades que estão para a ordem do dia. O que lhe conto aqui é da ordem da noite, aquilo que só pode ser ouvido e sentido bem baixinho, serve à poucos. Não espere com isso, uma escrita criteriosa e muito bem lapidada. A minha necessidade quer se fazer para além das coisas firmes e rígidas; aqui palavras caem. Eu te mostro minha ousadia e você o seu sorriso. Somos todos, eu e você, safados pela escrita saborosa. Ah que o corpo carregue para longe o que poderíamos imaginar num encontro tão perspicaz, eu e você – valeria o gole último do vinho seco. Mas a distância entre você e eu reafirma apenas nossos desajeitos, e todas essas coisas que a gente não entende. O que de certo, nos pouco entenderíamos. O encontro firma nossa, aquela nossa, necessidade de mais. Eu vi pequena a chance de realizar em min os desejos que gosto e cativo em você. Vejo em ti uma conquista não acabada, uma falsa queda nas minhas armadilhas. Ahhh! Você é o sintoma de mais. É o coro das vozes do meu corpo na alegria de ter, o que de você, eu tenho. Se eu pouco a tenho, eu tateio com imprecisão as formas pelas quais eu quero nos meus braços, mas isso você não precisa saber.
O que posso eu dizer se a alegria corre nos meus lábios ao ver em você a possibilidade de mais. Minha voz corre num duplo sentido e os significados se embaralham. Quem ri, agora sou eu. Eu estou sorrindo de você. Como posso eu mais, sem você? O que é despertar palavras que encontro em ti, palavras? Você tem corpo que me encanta, têm molecagem que me permite olhar o passado e pintar com você. Ahh se o passado fosse hoje, eu te levaria descobrir o que poderiamos juntos, sem nos perceber o quanto o queremos. Não te esconda, por que o reencontro já está marcado nas suas lembranças, que contra ela não a podemos enfrentar. Já foi. O que dizer se ainda quero?
Vale dizer muitas coisas, contar os delírios que se amarram com você, palavras. Você é palavra que corre nos meus sentimentos, nas minhas alegrias – te contaria meus pensamentos em meio as suas desconfianças. Seria o louco vivo das tuas lembranças. Você é encanto que desarma o soluço, faz tremer o sorriso, o embalo é gostoso. Eu te promovo palavras para você palavras! Faz de min, esse movimento de possibilidade, entre o que não somos, mas estamos afinados e interessados em ser - o ser da palavra. O que posso eu no gole do seu encanto, no presságio de que, com você, eu me torno mais? Desejaria a beleza incomoda, mas não qualquer beleza, seria a aquela desfeita em nome dos contornos flutuantes, em que os significados, entre você e eu, parecem caminhar num oceano tão possível de movimento. Se eu soubesse parar me afastaria dessa aventura e correria aos seus braços para sermos tranqüilos. Falaria em tom firme, o que de certo não poderíamos suportar em nome da obviedade. Minhas pernas estão entrelaçadas. O que se descobre em você, é um sentido possível do nosso encontro e não de nós, porque nos já nos escolhemos. O nosso encontro é dono de um passado que nos marca, de uma tentativa de mais, em que o fim pode justificar nossos encantos adormecidos. Mas eu só quero compor com palavras, meus encontros com você palavras, porque o mais, é palavras. O mais em min é a possibilidade de encanto entre eu e você, o que nos sobra desse nosso desajeito, dessa nossa falta de entrega. Sejamos simples: tudo isso só é possível em nome do seu orgulho, em nome da fraqueza que assola o seu olhar sobre min. Os personagens aqui são dois: eu e você, não fuja. O orgulho de ti, palavras, leva meu desajeito para longe. O seu orgulho é de encher os olhos, e de criar para si, um conteúdo bonito, em que o governo dos nossos encantos se dá na forma de palavras, em nome de você palavras.
Eu já não consigo encontrar você nisso tudo, porque eu fiz de min uma mistura, e falaríamos bem ao dizer que isso já é mais um dos nossos encontros, e com isso estaríamos nos levando a dizer sobre nós o que consideramos importante em cada palavra, em cada encanto de mais, em cada possibilidade de encontro com você, palavras. Falei demais...

Não-texto!

As palavras aqui não estão ganhas e não tenho nada pronto para você leitor, nada muito cristalino. Entreguei minhas possibilidades no encontro com palavras não-ditas, possibilidade estas de escrita fina. Fui, mas não sabia voltar, quer dizer, revoltar e acabei me perdendo. Encontrei lugares estranhos, ruas desconhecidas, luzes apagadas. Achei um táxi. Peguei, e o motorista não sabia ler o endereço, não o entendia. Perdi mais um pouco. Eu quero casa! As pistas são o torto rumo das pedras, os devires que escapam ao pontual, ao ordinário da cidade. Vire essa esquina. Acho que eu conheço essa senhora. Mais para frente!! Nunca observei aquele menino brincando feito soldado alegre. Ruas e crianças resgatam o encontro do habitar que a cidade restringe em nome do seguro, em nome do sereno. Minhas palavras pedem mais. O arcabouço é a cheia polvorosa dos nossos sistemas, principalmente, o nervoso. Aqui devia ser o momento da lucidez, mas não é. Embriagado de sentidos fico à espreita. Quero pelas palavras à linguagem de um rumo cambaleante. Negocio com as impossibilidades do dizer, o que é, de fato, a produção de um não-texto, não-literário, sem fábulas ou coisa assim. Quero o não-dizer. Resgato um sentido para além dos sentidos de escrita, uma natureza morta dos nossos encantos, talvez esquecida. Morta porque o quiseram assim, preconizaram em uma condição marginal que o entendimento governa em nome do inabalável, em nome da firma. Estragaram nossos apetites pelo não-entendido, pelas incertezas do dizer que se sustentam aqui pela precariedade. O estupor do dizer em nome das palavras que se servem do acaso. Remeto-me a construção que pega pelo braço - faz dançar.
Eu que não conheço ruas peguei um táxi, perdi o rumo e o desconhecido desabrocha. Nesse limite as palavras superam a convicção da escrita em nome das não-palavras, do não-texto, da inqueitude que ganha forma e deforma a construção literal rigorosa e da clara. A clareza é uma virtude que não a tenho, por isso vou de táxi. Mas peço aos meus estalos, ao que toca o corpo, caprichos de uma escrita com propriedade, ou seja, quero recuperar o que dela pouco sentimos de profundo, de inquisidor, de estranho. A fala que gagueja, as linhas que são movimento do indizível-torto-maluco-doído. O indizível é o estado do mundo. Estou aos gritos. Ao que pouco posso, te entrego palavras em nome dessa condição de escrita, em nome da nossa amizade, em nome do nosso desembaraço. Desfrutar dessa condição é trazer aos parágrafos nossa terrena possibilidade de servir o banquete para além das palavras, para além do sentido uniforme. Quero ganhar informes sobre a construção de outras condições das palavras, da escrita sem tema, do texto sem título, quiçá do texto sem autor, mas eu não me vi ainda sem palavras. Minha breve intensidade desfaz as vestimentas recorrentes em nossos dias. Quero o nú, o precário, a pele exposta e a carne selvagem. Para além dessas palavras encontro moradia nesse rumo incerto, nesses estalos de palavras. Eu juro que eu não devia mais querer você, transborda.
Quanto posso me perder? Quanto à volta, não sei se ainda é ida, se é começo, se é busca. O que posso eu que imbrico caminhos incertos, tantos miscelâneas que faz viver palavras, que vão guiar nossos significados firmes, canhestros. A sina aqui é de palavra. Dê palavras. Quero colorir o que de monocrático nossos olhos estão compostos. O preto e o branco vêm de domingo à domingo. Quero casa, quero descobrir o tom das cores, o tom das palavras. Agora estou falando baixinho, me escuta. Posso nessas palavras apenas o não-dizer. Resgato o que foi limpo em nossos textos estão em nome do inabalável. Faltam palavras e preciso tatear com a pele e jogo do dizível. Aqui é sujeira de corpo e alma. Mas é sujeira de criança alegre, de boca lambuzada. O não-dizer parte do começo e não do fim. O fim é o sentido das palavras claras, da originalidade, das csaiu oonstruções perfeitas e gramaticalmente corretas. Eu penso. Eu quem? Eu e eu? Ou eu e você? Quero o começo. O estalo de devir, e o que está por vir dessa construção. O corpo que mexe as palavras que se firmam, ara o terreno do dizível em nome do não-texto, do não-dito, do indizível cortez. O direito do movimento na escrita consume o não-dizer, o que está implícito no discurso sem nome, sem autor, sem idéias originais. O não-dizer é o vento que bate, é a produção de si aqui e agora, as trocas entre o corpo e o calor, o frio e o nebuloso. O não-dizer é necessidade de hoje, construção do amanha – vigora o pulsar das veias. Faz valer, dispara. Devir é começo, é eterno (re)começo. E pelo começo vou terminar... todo pulso é impulso? Então: dança!

Zombaria, terra e você!

Parece brincadeira e zombaria, mas não é não. As coisas, a vida, parece perigosa de vezes em quando e é preciso que se diga que isso sempre foi importante para os nossos atentos olhares comprometidos com alguma idéia de prazer. Até então encontrava muitas ofertas de prazeres a maioria delas num imediatismo de promessa bem feita. Num jogo de prazeres o imediato pede passagem em nome de mais. Eu também quero mais, mas não que com isso eu tenha muito. Falte-me e eu quero decompor em palavras, em um frenesi que garante minha sobrevida, o presságio de que com a loucura sou mais normal. Séria remédio desconfiar de certos pressupostos tão firmes nessa balburdia, nesse desembaraço. Afinal de contas tudo que se diz nesses palavras é o que somos disfarçadamente, não é verdade? Eu queria poder encontrar autores, poeta sem suas máscaras sem seus discursos sobre a vida, sobre a incerteza num tom tão calmo e dócil. É por isso que vemos artista ao invés de autores.Tentam nos fazer acreditar que criaram lugares para a arte, para a escrita, e continuam crer num movimento bonito e belo da produção da arte pela arte. Eu que não quero lugar definido, já tenho. Você também, espere mais um pouco. Mas não é isso.
Tenho algo irremediável para ti e não posso me encontrar com televisões, nem com os outros, aqui estou só. E é na escrita que encontro sobressaltos, a idéia intranqüila que só experimentamos nesse frenesi impuro. Não me acostumei e tenho certeza de que seria preciso caminhões cheios de terra para meu encontro. Aqui são arestas porque o mais profundo te escondo, você sabe. Falava a pouco do imediato, perdi o imediato de vista nessa escrita rápida. A escrita deveria durar o tempo necessário para trazer para si o destino dos possíveis. Ah isso é imediato! É aqui e agora. Mas também não é isso, não. Você, leitor, sabe o que é? Essa coisa querendo sair pela boca, querendo gritar. Tem nome para isso, existe nome? O que é vem de dentro que nos consome nesse fluxo de palavras em nome , em nome ... em nome do que ? Você leitor. Esqueça suas bandeiras de luta e invista na fadiga de terra firme pois ela possa ser um prêmio constate dessa aventura. É isso, precisamos ganhar a cada dia um pouco mais de terra que irá nos cobrir. Você vai se cansar mas não se implique. As incerteza trago eu à ti. Porque temos já os mesmos lugares, e a covardia trocamos aqui. Eu pois te digo isso e o que é isso em nome da sua frieza? Olha que eu posso mais. Estou me acostumando a dizer palavras cujo gosto parece tão incrédulo o que põe em evidência nossa distância nossas diferenças. O que vai comer hoje? O que se come nesse mundo em que você habita mas não o cogita. Esse traquejo chamado de entusiasmo, esse seu rosto à dispensar. Eu que preciso tanto de você leitor, dessa sua fraqueza de menino forte, to querendo te encontrar. Eu sei, essa idéia de que escrevo para você é tampouco uma farsa, um remédio desmedido que me faz calar dizendo palavras sem sujeito. Cadê o autor? O que se destina ao outro se consome num encontro ao meio dia. Sejamos simples e faremos o seguinte: consuma o gosto pelas palavras, esqueça o nome e introduza espaços invisíveis entre corpo e a vitrola, a mensagem e o presságio. Se não vibrar interrompe. Tem jornal na tevê.

Voltei Atrás

Por um tempo eu pensei e quis ficar distante da escrita e excluir a minha necessidade de ser compreendido pelo silêncio do papel ou pela sonoridade pulsante das teclas do computador. Eu tentei esquecer esse aperto vivo , por vezes inconsciente , eu falo dessa minha relação com as palavras ; esta tal energia que embarca na escrita e carrega os pensamentos acompanhados de palavras leves e escorregadias, encaixadas feito peça de lego e desfeitas também! Algumas delas possui a profundeza de uma âncora depositada ao mar, outras então são fortes como um iceberg, já a maioria são ínfimas, prodígias, pequeninas e caretas. Por descoberta, eu reluto à minha compreensão e envolvimento diante das frases insólitas , volto atrás e agora escrevo-te...
Escrevo apenas por que é através das palavras que eu queria me prostituir diante dos sonhos mais aventureiros e ordinários. Eu queria através delas ser as mais diversas verdades que esse mundo carrega, contemplar os vencedores durante séculos, receber as incrédulas honrarias dos eternos perdedores sociais mistificado pelo Bom Deus, pelo Deus Justo. Através das palavras eu vivo Deus, eu sou o Deus Eterno. Estas palavras são mais do que palavras; é fantasia, agonia, perdição, desconforto, é a capacidade trêmula de ser o que se planeja ser. Aqui , agora... Olha! Sou um soldado francês ajudando uma senhora italiana de vestido colorido atravessar a rua! Não ! Olha, agora agora ! Sou um mendigo esperando um sorriso. Pare , por favor, chega de brincadeira! Agora eu sou um anjo pecaminoso olhando lindas mulheres dormirem com a delicadeza de não exagerar no barulho. Esquece isso, bobagem! Já chega ! Eu me desfaço num bocejo as três da madrugada e volto a ser eu mesmo. Já sou.
As palavras me trazem o prazer de reconhecer muitos outros eus, elas me trazem até as minhas profundidades, nos espaços em que posso voar sem decolar, nas entrelinhas em que posso desenhar a moral com as cores da imoralidade e da falta de pureza. É como se fosse um mergulho em si atrás de um pensar inventivo a fim de novas descobertas alegres. Eu ainda não descobri que através das palavras eu posso tudo. A minha maior proeza aqui é dar brilho único e singular ao meu estranhamento com o mundo ; é guiar numa direção menos dolorosa sem anestesia e atravessar as pontes e rios numa direção cheia de desvios e retornos periódicos. Aqui é o vislumbre de uma viajem em busca das melhores palavras e das palavras melhores. É o ensaio de fantasia que não se dispensa máscaras e fraquejos nem soluços e sorrisos.
Leio. Releio. E num papel amassado refleti todo os nasceres e os morreres nômades que rodeia minha áurea , as vezes, ávidos de serem incompreendido pelo mortais de uma ordem só, de uma única verdade. Eu despejo sobre ele a minha capacidade de ser profundo a fim de ser livre, natural, orgânico, cru. É o prelúdio de se desfazer dos rótulos, uma idéia falsa do sublime e de superioridade que muitos deixam passar. É como se houvesse uma busca por nenhuma camisa , veste ou estampa. É um falsa pureza que inibe o erro e os movimentos inquietos. É a sustentação de um dregrau perigoso e condicionante que leva à lugar nenhum, escrever sob esse degrau é desperdiçar a intensidade dos movimentos que nos permitem experimentar ; essa tensão distrai a alegria e polariza uma artificialidade condensada e grossa. Escrever é um mergulho sem nota.
Essa minha incompreensão que não se permite dizer estar fora dos papéis nem muito menos da escrita se desenvolve , em meio aos espinhos, e se faz como uma fonte de outras formas de vida, outras possibilidades – talvez mais chato e menos romântico, frio não sei. A complexidade de um alguém se revela na instrospecção que por vezes se acentua na medida em que se reconhece o tamanho do fracasso ou do sucesso. Cuidado pois a interpretação errada pode trazer um novo fim ou mais um velho começo. Na verdade, o que busco com a ação das palavras é usufruir das lacunas em que se vislumbram novos ares, sementes do reconhecimento de uma profundidade severa e áspera, enfim deliciosa. A trajetória disforme dessa ação procura instalar nas abstrações e corroer a crueldade da mesmice e das molduras estragadas. É aqui em que posso gritar bem alto:
_ Outras possibilidades... Outros outros possíveis...
Eu faço destas linhas minha fonte de vida , é o que eu carrego de prestígio e agonia, mais do que isso, é aonde todas as desilusões transformam-se em emoções junto com as sombras tortas da vã existência, trilhados pelos caminhos rabiscados. São sempre recomeços clandestinos, diria Clarice. Aqui, é mergulhado em min que eu quero o mundo aos meus dedos. Eu canto , recanto, sou , não sou , esqueço ! Sou a alegria das palavras em busca das metáforas esquecidas e dos momentos irrisórios. Aqui eu vislumbro o mundo que eu quiser , eu faço da minha vida o maior de todos os pecados e canto pelos cantos das ruas. Sou o gigolô do bar e o bicho papão das criancinhas estragadas pela falta do desejo fantasmagóricos. Sou a insanidade disfarçada procurando a discórdia do amanhã e do depois. Por tudo , a minha relação com as palavras é muito maior do isto , sempre será. É nostalgia, é prostituição dos sentidos , carência de significados, é necessidade e devaneio, é o tímido descobrindo as linguagem dos palhaços mundanos, é o desabrochar do espinho e a construção do acaso, o nascer de uma vírgula, a cor de um sonho. É por tudo isso que te escrevo.
Hoje , descobri alguma coisa, voltei atrás... e escrevi!

sábado, 22 de dezembro de 2007

A avenida

Existe uma avenida que corta a cidade e faz chegar. Essa avenida não é, de certo, muito movimentada e os carros passam paulatinamente desviando os olhares e distraindo atenção. Não é de mal perceber a desordem dessa avenida em tempos tão sombrios desse nosso passatempo habitual. A avenida é linha reta, leva e trás e alguns nunca chegam. Outros não acham e esquecem de intervir num caminho novo e quiçá habitual. A velocidade é o que menos importa nessa passagem cuja direção é dirigida pelos musicalidade dos motores e das nossas energias assimétricas. Essa avenida tem esquinas perigosas, recantos caídos e sarjetas descompassadas. É beleza inquieta da cidade cujo o sabor define um hedonismo singelo e renovador ; há um sopro de alegria. Interesso-me tanto por essa avenida, por esse caminho que leva trazendo mais, e é insistência derradeira que toma de assalto paixões tristes. Canso-me da cidade, canso–me das suas formas. Essa tal avenida é presságio urgente introdutória dos resquícios da sensatez, recupero em min a volúpia dos desejos escondidinhos, há uma certa harmonia criadora e um sentimento de solidez num terreno árido e pedregoso. As formas da cidade se perdem nesta avenida pois o encanto das horas, seu tempo e seu espaço, preenche os passos desse sem sentido. A avenida é passagem e fruição, é chegada que conserva em si o gosto de despedida própria ; é misto de começo e fim, nascer e morrer na cidade.