sábado, 22 de dezembro de 2007
A avenida
Existe uma avenida que corta a cidade e faz chegar. Essa avenida não é, de certo, muito movimentada e os carros passam paulatinamente desviando os olhares e distraindo atenção. Não é de mal perceber a desordem dessa avenida em tempos tão sombrios desse nosso passatempo habitual. A avenida é linha reta, leva e trás e alguns nunca chegam. Outros não acham e esquecem de intervir num caminho novo e quiçá habitual. A velocidade é o que menos importa nessa passagem cuja direção é dirigida pelos musicalidade dos motores e das nossas energias assimétricas. Essa avenida tem esquinas perigosas, recantos caídos e sarjetas descompassadas. É beleza inquieta da cidade cujo o sabor define um hedonismo singelo e renovador ; há um sopro de alegria. Interesso-me tanto por essa avenida, por esse caminho que leva trazendo mais, e é insistência derradeira que toma de assalto paixões tristes. Canso-me da cidade, canso–me das suas formas. Essa tal avenida é presságio urgente introdutória dos resquícios da sensatez, recupero em min a volúpia dos desejos escondidinhos, há uma certa harmonia criadora e um sentimento de solidez num terreno árido e pedregoso. As formas da cidade se perdem nesta avenida pois o encanto das horas, seu tempo e seu espaço, preenche os passos desse sem sentido. A avenida é passagem e fruição, é chegada que conserva em si o gosto de despedida própria ; é misto de começo e fim, nascer e morrer na cidade.
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