sábado, 13 de setembro de 2008

A BIBLIOTECA

Uma vez fui perguntado dentro de uma biblioteca o que era preciso para predispor sobre palavras as forças do lirismo. Respondi com um quinhão de dúvidas que seria preciso consonância. Instantaneamente o senhor que me acompanhava retrucou:

- Mas consonância com o que ? Perguntou o velho com um certo sentido inquisidor.
- Eu digo sempre e as forças da paixão não me deixam mentir que a consonância é entre o corpo e a eloqüência que se ganha na linguagem por meio da palavra. É preciso um estado de sintonia entre ambos porque a sintonia é um estado nem sempre intercambiável, digo inteligível.

Na medida em que a conversa se desenrolava eu ia admitindo a seriedade do assunto e percebia como era inusitado pois sempre fui pouco acostumado à seriedade. Quando isso acontece somos facilmente preenchidos pela pronuncia de certas palavras difíceis que não se explicam a si mesma mas que funcionam como uma defesa à nossa condição – à ausência de palavra.

- Mas o que faz dessa sintonia um estado? Perguntou atrevidamente o senhor que mais parecia ter lido anteriormente algum manual investigatório.

- Ué! A sintonia funciona mais ou menos como uma televisão velha, tem dia que pega e tem dia que não pega. A diferença entre ambas é que a televisão é mais propensa a não funcionar quando ocorrem chuvas, névoas e tempestades. Nesses dias antenas vagabundas soltam e impedem o sinal.

Com rosto embasbacado meu interlocutor parecia não estar interessado a entender mas sim a perguntar.

- Mas o que faz dessa sua consonância uma proximidade com tevês velhas, tempestades, e até mesmo o sinal? Meu jovem o mundo carece disso, meu jovem. O mundo carece de sinal.

Agora quem parecia não entender nada era eu.

- É que a sintonia entre a produção da linguagem e o corpo ocorre quando há tempestades, chuvas e trovoadas. Mas isso nem de longe significa que só escrevemos no inverno, ta bom? Indaguei.

- E o sinal? Perguntou a velho.

- O sinal é tão invisível quando as ondas de transmissão entre antenas. O sinal são mensagens que mobilizam tentativas de entendimento do invisível.

- O sinal funciona como o que? Perguntou como se fosse criança curiosa.

- O corpo emite sinais que prescinde uma escuta e a escrita é o amplificador. Entendeu Sr. Orestes?

- Mais ou menos, disse. Eu ouvia sempre meus professores dizerem e faço um esforço tremendo para lembrá-los já que essa tua conversa menino parece familiar, de um tempo tão remoto na qual era comum e habitual eu freqüentar essa biblioteca e com fúria desbravar autores e conhecer estilos.

- O senhor leu muito? Questionei.

- Não. Não. Eu fui funcionário desse lugar, trabalhei aqui trinta e dois anos de minha vida. Nesses anos conheci pessoas das mais variadas e falávamos muitos sobre autores. Por meio dessas pessoas conheci autores das quais nunca li, mas sempre abocanhava um conversa ali e outra aqui. Nesse tempo conheci estilos, autores que eu sempre repetia como se tivesse lido as mais recentes obras traduzidas e freqüentado congressos internacionais todos os anos. Eu achava engraçado quando uma pessoa dizia um nome errado, é claro, que eu não corrigia pois quem era eu pobre auxiliar de balcão para corrigi-lo? A propósito quais autores tem lido em meio a essa fala fascinante?

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